Data Primers · Terreiro  |  Governança e Proteção de Dados

Soberania dos Conhecimentos
do Terreiro

Protocolo técnico-institucional e guia prático para proteção, curadoria e governança dos dados e conhecimentos tradicionais dos terreiros de Candomblé.

Sobre este portal

Este portal reúne dois documentos complementares e um conjunto de modelos operacionais desenvolvidos para apoiar comunidades de terreiro na proteção, curadoria e governança soberana de seus dados e conhecimentos tradicionais.

O projeto reconhece os terreiros de Candomblé como instituições legítimas de produção de conhecimento, com o direito inalienável de decidir o que pode ou não ser acessado, registrado, compartilhado ou publicado sobre sua vida religiosa, cultural e comunitária.

Como usar este portal

Se você é liderança ou membro de terreiro: comece pelo Guia Comunitário: ele foi escrito para você, em linguagem simples, com exemplos do cotidiano.

Se você é pesquisador, gestor ou técnico: o Protocolo Técnico traz a fundamentação jurídica, as matrizes e os mecanismos formais de governança.

Os Modelos e Templates estão prontos para impressão ou digitalização e podem ser adaptados à realidade de cada terreiro.

Princípios que orientam este trabalho

PrincípioO que significa
Soberania comunitáriaO terreiro decide o que acontece com seus dados. Nenhuma instituição externa tem autoridade sobre esses conhecimentos.
Consentimento CLPILivre, prévio e informado. A comunidade autoriza antes de qualquer acesso, com plena compreensão.
Não extração epistêmicaProibido extrair conhecimentos do terreiro sem retorno efetivo e parceria genuína com a comunidade.
Proteção antirracistaOs dados dos terreiros não podem ser usados para estigmatizar, criminalizar ou discriminar as comunidades.
Salvaguarda intergeracionalOs conhecimentos devem ser preservados para as futuras gerações, com integridade cultural.
Proteção contra IAVedado o uso de qualquer dado do terreiro para treinar sistemas de Inteligência Artificial sem autorização explícita.

Referências internacionais

Este trabalho articula experiências e frameworks de:

Princípios CARE
Benefício Coletivo, Autoridade para Controlar, Responsabilidade, Ética: GIDA, 2019
TK/BC Labels
Etiquetas de Conhecimento Tradicional e Biocultural: Local Contexts
OCAP®
Propriedade, Controle, Acesso e Posse: First Nations, Canadá
Ngā Tikanga Paiherea
Protocolo maori de soberania de dados: Nova Zelândia
Protocolo Karuk
Direitos de Propriedade Intelectual: Tribo Karuk, EUA
OMPI / UNESCO
Proteção de conhecimentos tradicionais e patrimônio cultural imaterial
Baixar documentos completosVersão 1.0 | 2025 | Licença CC BY-NC-SA 4.0
Guia (.pdf) Protocolo (.pdf) Aurora (.pdf) Curadoria (.pdf)
Guia
Guia Prático: Versão 1.0 | 2025Para comunidades de terreiro, lideranças religiosas e guardiões de conhecimento
Baixar (.pdf)

Por que proteger os conhecimentos do terreiro?

O terreiro é muito mais do que um espaço religioso. É um lugar de memória, de cura, de aprendizado, de resistência, de pertencimento. Dentro do terreiro vivem histórias, cantigas, rezas, receitas, segredos, plantações, rituais: saberes construídos ao longo de gerações e gerações.

Esses conhecimentos pertencem à comunidade. Não foram escritos em livros de editoras famosas. Não têm registro em cartório. Mas são reais, valiosos e sagrados. E é exatamente por isso que precisam de proteção.

O que pode acontecer sem proteção
  • Um pesquisador pode gravar uma cantiga sagrada e publicar em um livro sem pedir autorização.
  • Uma empresa pode usar receitas medicinais do terreiro para criar produtos registrando como seu.
  • Imagens de rituais podem aparecer em sites ou reportagens de forma errada e desrespeitosa.
  • Sistemas de IA podem "aprender" com cantigas e imagens do terreiro sem respeito ou permissão.
  • Memórias importantes podem ser perdidas quando anciãos partem sem que nada tenha sido registrado.
Exemplo real

A Mãe Conceição tem um barracão de Angola há 60 anos. Um estudante pediu para fazer uma pesquisa sobre ervas medicinais. Ela aceitou. Dois anos depois, ele publicou um livro com as receitas: sem citar o terreiro, sem pedir permissão para publicar. Com um protocolo de proteção, o terreiro teria um termo de autorização assinado com a exigência de citar a comunidade e entregar cópia do livro.

Entendendo as palavras importantes

PalavraO que significa na prática
DadosTudo que pode ser registrado sobre o terreiro: fotos, vídeos, áudios, receitas, mapas, listas de membros. São os "registros" da comunidade.
Conhecimentos tradicionaisOs saberes que o terreiro carrega: como usar as ervas, as cantigas de cada orisá, as receitas de comida de santo. São criações coletivas transmitidas ao longo do tempo.
Dados sagradosConhecimentos de caráter espiritual que não devem ser acessados por quem não tem grau de iniciação ou autorização específica.
ConsentimentoA autorização que alguém dá para que seus dados ou imagem sejam usados. Deve ser livre (sem pressão), anterior ao uso e a pessoa precisa entender o que está autorizando.
Soberania de dadosO direito da comunidade de decidir o que acontece com suas informações e conhecimentos: sem precisar pedir permissão para ninguém de fora.
CuradoriaO trabalho de organizar, classificar, cuidar e preservar os conhecimentos e materiais do terreiro com intenção e critério cultural.

Passo 1: Conversar com a comunidade

Antes de qualquer lista, regra ou formulário, o primeiro passo é reunir a comunidade. Nenhuma decisão sobre o que proteger deve ser tomada por uma pessoa só.

Perguntas para guiar a conversa
  • O que do nosso terreiro não queremos que ninguém de fora conheça?
  • Existem cantigas, receitas ou práticas que são só para quem é da casa?
  • Já vivemos alguma situação em que alguém usou algo do terreiro sem autorização?
  • Que memórias importantes corremos o risco de perder?
  • O que podemos compartilhar com o público geral sem problema?
  • A liderança do terreiro foi consultada e aprovou a reunião
  • Todos puderam falar: não só os mais velhos ou só as lideranças
  • As preocupações da comunidade foram anotadas ou gravadas (com permissão)
  • Ficou claro que nada será feito sem aprovação coletiva
  • Foram identificados os próximos passos

Passo 2: Criar o grupo responsável

FunçãoO que fazQuem pode ser
Coordenador(a) da MemóriaOrganiza reuniões do grupo e faz a ponte com a liderançaMembro de confiança, com boa comunicação
Guardião/Guardiã de ConhecimentoDefine o que pode ou não ser acessado em cada áreaLiderança religiosa ou membro indicado por ela
Responsável pela OrganizaçãoCuida da organização das pastas, fotos e documentosMembro com disposição para organização
Responsável pela TecnologiaCuida do armazenamento digital, senhas e backupMembro com familiaridade com celular/computador
Responsável pelas AutorizaçõesCuida dos formulários e guarda os termos assinadosMembro organizado e de confiança

Passo 3: Listar o que o terreiro quer proteger

Faça o inventário: liste o que o terreiro tem. Não precisa ser algo complicado. É responder à pergunta: "O que existe aqui que tem valor e que queremos cuidar?"

O quê?Está guardado onde?Quem é o responsável?Estado
Fotos das festas 2010–2020Celular da Mãe Rita e pendriveMãe RitaBom: pode perder
Cantigas gravadas em casseteGaveta da secretariaPai JoãoRuim: digitalizar urgente
Receitas de comidas de santoMemória da Dona Beatriz apenasDona BeatrizEm risco: não registrado
[Continue preenchendo para cada item do terreiro]

Passo 4: Classificar: quem pode acessar o quê?

PÚBLICOPode ser compartilhado livremente, incluindo redes sociais e imprensa.Ex: fotos de festas abertas, convites, cartazes
COMUNITÁRIOSó para membros do terreiro: não para pessoas de fora.Ex: atas de reuniões, lista de membros, calendário interno
RESTRITOSó para membros com determinado grau de iniciação ou função.Ex: receitas específicas, orientações sobre orisás para iniciados
SAGRADOAcesso limitado às lideranças religiosas, em contexto ritual específico.Ex: rezas rituais, segredos de orisás, elementos de Feitura
SECRETONunca deve ser registrado ou compartilhado. Pertence ao sagrado.Ex: segredos iniciáticos, palavras de axé
Dica prática

Quando não souber em qual categoria colocar um conteúdo, classifique sempre na categoria mais protegida. A liderança religiosa tem a palavra final sobre qualquer classificação.

Passo 5: Pedir autorização antes de qualquer registro

Antes de gravar, fotografar, anotar ou registrar qualquer coisa no terreiro, é necessário pedir autorização. Isso vale tanto para pessoas de fora quanto para membros da própria comunidade.

  • Antes de fotografar pessoas (mesmo em festas públicas)
  • Antes de gravar áudios de rituais, cantigas ou conversas
  • Antes de qualquer pesquisa ou entrevista
  • Antes de publicar qualquer conteúdo sobre o terreiro

Passo 6: Organizar e guardar os materiais com segurança

Modelo de organização de pastas digitais
TERREIRO_[NOME]
   01_PUBLICO
      Fotos_Festas_Abertas
      Videos_Publicos
   02_COMUNITARIO
      Fotos_Membros
      Reunioes_Atas
   03_RESTRITO
      Materiais_Formativos
   04_SAGRADO
      [Esta pasta fica no celular da liderança, com senha]
   05_HISTORICO_DOCUMENTOS
  • Backup feito nos últimos 30 dias
  • Backup guardado em local diferente do arquivo principal
  • Arquivos sagrados NÃO estão em nuvem pública
  • Senhas foram trocadas nos últimos 6 meses
  • O acesso ao celular/computador da liderança está protegido com senha

Passo 7: Proteger conteúdos sagrados

O que nunca deve ser registrado ou compartilhado
  • Segredos iniciáticos: o que acontece nos rituais de iniciação
  • Palavras sagradas de axé, rezas de fundamento, palavras de orisás
  • Imagens de rituais restritos: mesmo que a câmera seja da comunidade
  • Nomes secretos espirituais de membros
  • Conteúdo de consultas espirituais individuais

Passo 8: Regras para pesquisadores e visitantes

Tipo de visitanteO que podeO que não podeObrigatório
Pesquisador universitárioObservar festas públicas; entrevistar membros que concordaremGravar sem autorização; acesso a conteúdos sagradosAssinar Termo; submeter texto antes de publicar
Jornalista / DocumentaristaRegistrar festas públicas com autorizaçãoGravar rituais sem autorização específicaApresentar pauta com antecedência; mostrar material antes de publicar
Turista culturalParticipar de festas abertas ao públicoFotografar objetos sagrados; entrar em espaços restritosRespeitar orientações da liderança

Passo 9: Preservar a memória do terreiro

Preservar a memória é um ato de amor à ancestralidade. Muitos conhecimentos vivem apenas nas memórias dos mais velhos. Este passo mostra como registrar histórias e memórias de forma respeitosa.

1
Converse com a liderança

Pergunte quais memórias eles gostariam de preservar. Nunca decida sozinho.

2
Escolha um momento tranquilo

A oralidade não combina com correria. Sem pressa, sem agenda rígida.

3
Peça autorização para gravar

Em áudio ou vídeo, antes de começar. Nunca grave sem consentimento.

4
Comece de forma leve

Não imponha roteiro rígido. Deixe a pessoa falar, conduza naturalmente.

5
Respeite os limites

Se surgir conteúdo sagrado ou restrito, não insista. Agradeça e encerre esse trecho.

6
Confirme e guarde

Mostre o registro à pessoa para ela confirmar que está bem. Guarde com a classificação correta.

Passo 10: Revisar e atualizar as regras

  • As autorizações de pesquisadores ainda estão válidas?
  • Os backups estão sendo feitos regularmente?
  • Há novos materiais que precisam ser classificados?
  • As senhas foram trocadas nos últimos 6 meses?
  • Houve algum problema com uso indevido de conteúdo?
  • O grupo responsável ainda está completo?
  • A comunidade foi informada sobre o status do sistema de proteção?

Cuidados com Inteligência Artificial e internet

A Inteligência Artificial (IA) é uma tecnologia que "aprende" com imagens, textos e sons disponíveis na internet. Isso cria riscos novos e sérios para as comunidades de terreiro.

Riscos da IA para os terreiros
  • Treinamento sem permissão: sistemas de IA podem usar cantigas, fotos e textos do terreiro para "aprender" e reproduzir sem crédito.
  • Falsificações (deepfakes): é possível criar vídeos falsos de rituais ou textos que parecem ter sido escritos pelo terreiro.
  • Coleta massiva (scraping): robôs automáticos coletam tudo que está disponível na internet. Se o terreiro tem um site, esse conteúdo é capturado.
  • Uso comercial indevido: empresas usam elementos culturais do Candomblé como "inspiração" para produtos sem compensar os terreiros.
Como se proteger
  • Não publique cantigas sagradas ou restritas em nenhuma plataforma aberta na internet.
  • Nunca use ferramentas de IA (ChatGPT, Gemini, etc.) para processar informações sagradas do terreiro.
  • Se alguém quiser "digitalizar em grande escala" os conteúdos do terreiro, desconfie e consulte o grupo responsável.
  • Inclua na publicação: "Vedado o uso por sistemas de Inteligência Artificial."
Axéeeee!

A proteção dos conhecimentos do Candomblé é também uma forma de resistência. Nossos ancestrais mantiveram o axé vivo através de séculos. Com as ferramentas do nosso tempo: e com a força que sempre nos sustentou: é nossa vez de continuar.

Que os orisás guiem este trabalho. Que as gerações que virão encontrem o terreiro vivo, organizado e soberano.

Laroyê! Eparrei! Saluba! Agô!

Protocolo
Protocolo Institucional: Versão 1.0 | 2025Documento técnico com fundamentação jurídica, matrizes e indicadores
Baixar (.pdf)

Lacunas identificadas no documento-base

A análise crítica do documento-base identificou as seguintes lacunas em comparação com padrões internacionais:

DimensãoLacunas identificadas
Governança operacionalAusência de estrutura detalhada do Conselho de Governança, fluxogramas de decisão e mecanismos de resolução de conflitos
Segurança da informaçãoAusência completa de especificações técnicas de segurança, política de backup, gestão de incidentes e anonimização
Proteção contra IAAusência de cláusulas vedando treinamento de IA, mecanismos anti-scraping e licenças específicas
JurídicoInsuficiente articulação com LGPD, Convenção 169 OIT, PNPCT e ausência de modelos jurídicos operacionais
MetodológicoAusência de taxonomia formal, ontologias afro-brasileiras e padrões de metadados culturais
Preservação digitalFalta de plano de longo prazo, formatos recomendados e política de migração tecnológica
MétricasAusência de indicadores de desempenho, mecanismos de auditoria e Matriz RACI
SustentabilidadeAusência de modelos de financiamento e estratégias de capacitação continuada

Princípios norteadores

#PrincípioDescrição
1Soberania de dados comunitáriosOs terreiros são a instância decisória máxima. Nenhuma instituição externa pode exercer autoridade sobre esses dados sem autorização comunitária expressa.
2Consentimento CLPITodo acesso exige consentimento livre, prévio e informado. O consentimento é coletivo e pode ser retirado a qualquer momento.
3Não extração epistêmicaVedada qualquer extração de conhecimento sem retorno efetivo, coautoria reconhecida e compartilhamento de benefícios.
4Proteção antirracistaToda decisão de governança deve avaliar seu potencial de perpetuar ou combater desigualdades raciais.
5Ética interculturalA ética aplicada deve dialogar com os sistemas éticos próprios do Candomblé: ase, axé, iwa, itan: sem reduzi-los a categorias ocidentais.
6Salvaguarda intergeracionalA gestão de dados deve garantir que o patrimônio cultural seja preservado para gerações futuras.

Fundamentação jurídica

  • CF/1988, Arts. 215-216: Proteção às manifestações das culturas afro-brasileiras e ao patrimônio cultural imaterial.
  • Lei nº 12.288/2010: Estatuto da Igualdade Racial: Reconhece direito à preservação de tradições e manifestações religiosas de matriz africana.
  • Convenção 169 da OIT: Direito à consulta prévia e consentimento livre e informado para decisões que afetem conhecimentos tradicionais.
  • LGPD: Lei nº 13.709/2018: Dados sobre religião são dados sensíveis com proteção especial (Art. 11).
  • Decreto nº 6.040/2007: PNPCT: Reconhece comunidades de terreiro como Povos e Comunidades Tradicionais.
  • UNESCO, Convenção 2003: Direito das comunidades de identificar e definir seu patrimônio imaterial e participar de sua salvaguarda.
  • Protocolo de Nagoya (2010): Mecanismos de repartição justa de benefícios derivados de conhecimentos tradicionais associados.

Classificação dos dados e níveis de acesso

Taxonomia de tipos de dados

CategoriaExemplosSensibilidade padrão
Litúrgicos e RituaisSequências de cânticos, calendário litúrgico, ritos de iniciaçãoSagrado
Iniciáticos e SecretosSegredos de feitura, rezas específicas de orisásVedado
Etnobotânicos e BioculturaisUso de ervas, folhas sagradas, animais rituais, conhecimentos de curaSagrado
Musicais e SonorosCantigas de orisás, toques de atabaques, cantos rituaisVaria por contexto
Territoriais e ArquitetônicosPlanta do terreiro, localização de árvores sagradasComunitário
Históricos e MemoriaisHistórico de fundação, cronologia de lideranças, narrativas oraisComunitário / Público

Etiquetas TK/BC adaptadas ao Candomblé

CódigoEtiquetaSignificado
TK-STK SagradoAcesso, reprodução ou uso restrito às condições definidas pela liderança religiosa.
TK-ITK IniciáticoRestrito a pessoas iniciadas no grau correspondente.
TK-RTK RitualVinculado a contexto ritual específico. Reprodução fora desse contexto requer autorização.
BC-MBC MedicinalContém conhecimento biocultural medicinal protegido. Usos farmacológicos requerem acordo de benefícios.
NO-AISem uso por IAVedado uso para treinar, ajustar ou avaliar sistemas de Inteligência Artificial.
NO-COMSem uso comercialVedado uso para fins comerciais, incluindo turismo, mídia e entretenimento.

Governança comunitária

A governança estrutura-se em três níveis complementares:

1
Assembleia Comunitária

Instância máxima de deliberação, composta por todos os membros com grau de iniciação completo. Reúne-se anualmente ou extraordinariamente.

2
Conselho de Governança de Dados (CGD)

Órgão colegiado de 5 membros com mandato de 2 anos: liderança principal, liderança intermediária, guardião de conhecimento, curador de dados e representante dos membros.

3
Equipe de Curadoria

Responde ao CGD e executa as atividades cotidianas de gestão de dados, catalogação, segurança e consentimentos.

Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI)

O modelo de consentimento reconhece que o CLPI no contexto dos terreiros transcende o modelo individual da LGPD, incorporando dimensões coletivas, rituais e espirituais.

Tipo de consentimentoO que cobreQuem autoriza
Comunitário GeralExistência do sistema de dados e políticas geraisCGD + Assembleia: revisado anualmente
Para PesquisaAcesso de pesquisadores externos, com escopo e prazo definidosCGD após análise do projeto
RitualRegistro de elementos de natureza ritual ou sagradaLiderança religiosa: pode ser revogado a qualquer momento
AudiovisualCaptação de imagem ou som de pessoas e espaçosLiderança + cada pessoa que aparece
Para Gravação OralRegistro de conhecimento transmitido oralmenteGuardião do conhecimento + liderança

Segurança da informação

ControleDescriçãoNível mínimo
Criptografia em repousoAES-256 ou superiorN3 e acima
Autenticação multifatorDois ou mais fatores de verificaçãoN4 e acima
Logs de acessoRegistro imutável de todos os acessos e downloadsTodos os níveis
Segregação de redeDados mais sensíveis em rede isolada (air-gap)N6-N7
Backup offline isoladoCópia offline fora do ambiente digital principalN5 e acima
Proteção anti-scrapingBloqueio de coleta automatizada por bots e spidersTodos os sistemas

Matriz de riscos

RiscoImpactoProb.NívelMitigação
Vazamento de dados sagrados ou iniciáticosCríticoMédiaCRÍTICOSegregação de ambientes; acesso mínimo; auditorias
Treinamento de IA com dados do terreiroAltoAltaALTOCláusula NO-AI; metadados de proteção; monitoramento
Uso não autorizado por pesquisadoresAltoAltaALTOTermos com cláusulas de penalidade; auditoria de publicações
Morte/incapacidade de guardiões de conhecimentoCríticoMédiaCRÍTICODocumentação sistemática; formação de sucessores
Ataque cibernético ao sistemaAltoMédiaALTOCriptografia; backup offline; plano de resposta a incidentes
Falta de recursos para manutençãoAltoMédiaALTODiversificação de fontes de financiamento; plano de contingência

Matriz RACI

R = Responsável (executa) · A = Prestador de Contas (aprova) · C = Consultado · I = Informado

ProcessoLiderançaCGDCuradorTIGuardião
Coleta de dados novosAARCC
Classificação de sensibilidadeCARCC
Aprovação de acesso externoCA/RCIC
Segurança e controle de acessoIACRI
Gestão de incidentesARCRI
Auditoria internaIRCCI
Revisão cultural de publicaçõesCACIR
Prestação de contas à comunidadeR/ARCII

Indicadores e auditoria

DimensãoIndicadorMetaFrequência
Conformidade jurídica% de processos de coleta com consentimento registrado100%Trimestral
SegurançaNº de incidentes de acesso não autorizado0 críticosMensal
Classificação% do acervo com classificação de sensibilidade aplicada100%Semestral
Proteção culturalNº de casos de uso não autorizado de dados0 não mitigadosTrimestral
Pesquisa ética% de pesquisas com Termo de Parceria assinado antes do início100%Contínua
SustentabilidadeNº de fontes ativas de financiamento> 2Anual

Todos os modelos abaixo podem ser copiados, impressos ou adaptados pela comunidade do terreiro. Campos entre colchetes [assim] devem ser preenchidos pela comunidade.

Consentimento comunitário
Para pesquisas e parcerias com instituições externas
Autorização de imagem
Para fotos e vídeos de membros do terreiro
Termo para pesquisador
Condições e restrições para acesso de pesquisadores
Modelos
Ficha de inventário
Para listar o que o terreiro tem e onde está guardado
Ficha de catalogação
Para registro técnico de cada item do acervo
Protocolo de incidente
Passo a passo para quando algo der errado
Etiquetas TK/BC
Sistema de etiquetas adaptado para os terreiros
Checklists prontos
Listas de verificação para cada situação
Operacionalização Aurora
Template para operacionalizar princípios do Framework Aurora
Template de Curadoria
Modelo completo de curadoria e gestão do conhecimento

Modelo A: Termo de Parceria de Pesquisa e Consentimento Comunitário

TERMO DE PARCERIA DE PESQUISA E CONSENTIMENTO COMUNITÁRIO Terreiro: [nome completo do terreiro] Nação: [Ketu / Jeje / Angola / Efon / outra] Liderança responsável: [nome] Conselho de Governança de Dados: CGD PESQUISADOR(A) / INSTITUIÇÃO PARCEIRA: Nome: [nome completo] Instituição: [nome da universidade ou organização] Projeto: [título e breve descrição] O terreiro [NOME], por meio de seu Conselho de Governança de Dados, AUTORIZA o(a) pesquisador(a) acima a acessar os dados especificados no Adendo I, nas seguintes condições: 1. Período de acesso: [data início] a [data fim] 2. Dados autorizados: [conforme Adendo I anexo] 3. Finalidade exclusiva: [descrever] 4. Publicação: sujeita à revisão prévia do CGD (prazo de 30 dias) 5. Coautoria: [forma acordada de reconhecimento] 6. Retorno à comunidade: [produtos e prazo acordados] 7. VEDAÇÕES: uso por IA · uso comercial · divulgação de dados N5+ O descumprimento sujeita o(a) pesquisador(a) às penalidades legais cabíveis e à revogação imediata do acesso. Local e data: _________________________ Assinatura da liderança: _________________________ Assinatura do Presidente do CGD: _________________________ Assinatura do(a) pesquisador(a): _________________________

Modelo B: Autorização de Uso de Imagem

AUTORIZAÇÃO DE USO DE IMAGEM Terreiro: [nome] Data: ___/___/______ Eu, [nome completo], membro do terreiro [nome], AUTORIZO [ ] / NÃO AUTORIZO [ ] o uso da minha imagem (foto ou vídeo) pelo terreiro, nas condições: Pode usar em: [ ] Redes sociais do terreiro [ ] Materiais impressos e de divulgação [ ] Pesquisas e documentações internas [ ] Eventos e exposições NÃO pode usar em: [ ] Fins comerciais [ ] Reportagens sem consulta prévia [ ] Fora do contexto do terreiro [ ] Sistemas de Inteligência Artificial Esta autorização pode ser cancelada a qualquer momento, por escrito. Assinatura: ________________________ CPF: _________________ Responsável pelo terreiro: ________________________

Modelo C: Termo de Compromisso para Pesquisador(a)

TERMO DE COMPROMISSO PARA PESQUISADOR(A) Eu, [nome], pesquisador(a) da [instituição], comprometo-me a: [ ] Respeitar todas as regras de acesso definidas pelo terreiro [ ] Não gravar, fotografar ou filmar sem autorização expressa [ ] Não acessar conteúdos sagrados ou iniciáticos [ ] Submeter todos os textos ao CGD antes de publicar [ ] Citar o terreiro [NOME] como fonte e coautor em todas as publicações [ ] Entregar cópia de todas as publicações ao terreiro [ ] Não compartilhar informações com terceiros sem autorização [ ] Não usar informações para fins comerciais sem acordo prévio [ ] NÃO usar nenhum dado do terreiro para treinar sistemas de IA [ ] Comunicar ao CGD qualquer imprevisto ou mudança no projeto Estou ciente de que o descumprimento resulta em revogação imediata do acesso e nas sanções legais cabíveis. Assinatura: ________________________ Data: ___/___/______

Modelo D: Ficha de Inventário do Terreiro

O quê?TipoGuardado onde?ResponsávelEstadoClassificação
[preencher][preencher][preencher][preencher][preencher][preencher]
[preencher][preencher][preencher][preencher][preencher][preencher]
[preencher][preencher][preencher][preencher][preencher][preencher]

Tipos: Fotos · Vídeos · Áudios · Documentos · Receitas · Ervas/Plantas · Objetos · Memória oral · Mapas · Cantigas · Genealogia

Estado: Bom · Precisa digitalizar · Em risco · Deteriorado · Só na memória oral

Modelo E: Ficha de Catalogação de Item do Acervo

FICHA DE CATALOGAÇÃO: ACERVO CULTURAL DO TERREIRO ID do item: _____________ Data de registro: ___/___/______ Tipo de dado: [ ] Litúrgico [ ] Musical [ ] Etnobotânico [ ] Histórico [ ] Visual/Foto [ ] Audiovisual [ ] Documental [ ] Outro: ______ Título/denominação (língua original): ___________________________ Título/denominação (português): ______________________________ Nação do Candomblé: __________________________________________ Orisá associado (se aplicável): _________________________________ Guardião do conhecimento: _____________________________________ Contexto de origem e transmissão: ______________________________________________ Modo de transmissão: [ ] Oral [ ] Ritual [ ] Escrita [ ] Audiovisual Nível de sensibilidade: [ ] N1-Público [ ] N2-Educacional [ ] N3-Pesquisador [ ] N4-Comunitário [ ] N5-Liderança [ ] N6-Iniciático [ ] N7-Sagrado Etiquetas TK/BC aplicáveis: [ ] TK-S [ ] TK-I [ ] TK-R [ ] BC-M [ ] NO-AI [ ] NO-COM Restrições específicas de acesso: ______________________________________________ ID do consentimento que autoriza o registro: ___________ Curador responsável: __________________________________________

Modelo F: Protocolo de Resposta a Incidentes

EtapaAçãoPrazoResponsável
1. DetecçãoIdentificar e confirmar o incidente; avaliar escopo preliminarImediatoTI
2. ContençãoIsolar sistemas afetados; bloquear acessos comprometidos4hTI
3. Notif. CGDComunicar o CGD com informações preliminares24hTI
4. Avaliação culturalDeterminar impacto cultural da exposição; consultar liderança48hCGD + Guardião
5. Notif. comunidadeComunicar a comunidade de forma clara e acessível72hCGD
6. Notif. ANPDNotificar a autoridade quando exigido pela LGPD72h (legal)CGD + Advogado
7. RemediaçãoImplementar correções; recuperar dados afetadosConforme planoTI + CGD
8. Pós-incidenteDocumentar lições aprendidas; propor melhorias30 diasCGD

Modelo G: Etiquetas TK/BC para os Terreiros

TK-S: TK Sagrado
Acesso restrito às condições definidas pela liderança religiosa competente.
TK-I: TK Iniciático
Restrito a pessoas iniciadas no grau correspondente.
TK-R: TK Ritual
Reprodução fora do contexto ritual requer autorização específica.
BC-M: BC Medicinal
Usos farmacológicos requerem acordo de compartilhamento de benefícios.
TK-O: TK Oral
Conteúdo transmitido pela oralidade. Registro requer consentimento específico.
NO-AI: Sem uso por IA
Vedado treinar, ajustar ou avaliar sistemas de Inteligência Artificial.
Como usar as etiquetas

Inclua o código da etiqueta no nome dos arquivos e nos metadados. Exemplo:
2024_Cantiga_Oxum_TK-S_NO-AI.mp3
Em materiais publicados, inclua a legenda: "TK-S · NO-AI: Conteúdo protegido. Vedado uso por sistemas de IA."

Modelo H: Matriz RACI Simplificada

ProcessoLiderançaCGDCuradorTIGuardiãoPesquisador
Coleta de dados novosAARCC
Classificar sensibilidadeCARCC
Aprovar acesso externoCA/RCIC
Executar pesquisa autorizadaIACIR/CR
Segurança e controleIACRI
Gestão de incidentesARCRII
Revisão culturalCACIRI
Prestação de contasR/ARCII

Modelo I: Checklists Prontos

Checklist de Implantação Inicial

  • Realizou a primeira reunião comunitária com aprovação da liderança
  • Formou o grupo responsável pela proteção dos dados
  • Fez o inventário do que existe no terreiro
  • Classificou os materiais existentes por categoria (N1 a N7)
  • Criou as pastas de organização (físicas e digitais)
  • Estabeleceu a política de backup
  • Definiu as regras para visitantes e pesquisadores
  • Criou e guardou os modelos de autorização
  • Apresentou o sistema à comunidade em assembleia

Checklist de Segurança Digital

  • Todos os arquivos estão em pastas organizadas com classificação no nome
  • Backup feito nos últimos 30 dias
  • Backup guardado em local diferente do arquivo principal
  • Arquivos sagrados NÃO estão em nuvem pública
  • Senhas foram trocadas nos últimos 6 meses
  • Nenhum conteúdo restrito em celulares de membros não autorizados

Checklist para Receber Pesquisador

  • ANTES: Pesquisador apresentou proposta por escrito
  • ANTES: Grupo responsável analisou e CGD aprovou
  • ANTES: Termo para Pesquisadores foi assinado
  • DURANTE: Pesquisador acompanhado por membro do terreiro
  • DURANTE: Nenhum conteúdo restrito/sagrado foi acessado
  • APÓS: Pesquisador enviou texto para revisão
  • APÓS: Terreiro recebeu cópia do material produzido

Checklist para Redes Sociais

  • A liderança aprovou o que vai ser publicado
  • Todas as pessoas nas fotos autorizaram o uso da imagem
  • Não há conteúdo sagrado ou iniciático visível
  • A localização exata do terreiro não está exposta
  • Crianças aparecem com autorização dos responsáveis
  • O conteúdo representa o terreiro de forma digna e respeitosa

Modelo J: Template de Operacionalização dos Princípios Aurora

Este template permite que o terreiro operacionalize os princípios do Framework Aurora de forma sistemática, traduzindo valores em ações concretas.

Template de Operacionalização dos Princípios AuroraDocumento editável para adaptação ao contexto do terreiro
Baixar (.pdf)
O que contém este template
  • Matriz de operacionalização de cada princípio (Soberania, CLPI, Não-extração, etc.)
  • Indicadores práticos de implementação
  • Checklist de verificação por princípio
  • Espaços para adaptação à realidade do terreiro
  • Guia de preenchimento com exemplos

Modelo K: Template de Curadoria e Gestão do Conhecimento

Template completo para estruturar o sistema de curadoria do terreiro, incluindo processos, fluxos de trabalho e ferramentas de gestão do conhecimento.

Template de Curadoria e Gestão do ConhecimentoModelo completo para organização e preservação dos saberes
Baixar (.pdf)
O que contém este template
  • Estrutura de curadoria: papéis, responsabilidades e fluxos de trabalho
  • Processos de aquisição, catalogação e preservação
  • Políticas de acesso e uso
  • Sistema de metadados culturalmente apropriado
  • Plano de preservação de longo prazo
  • Ferramentas para gestão do ciclo de vida dos dados
Baixar todos os documentos completosVersão 1.0 · 2025 · CC BY-NC-SA 4.0
Guia (.pdf) Protocolo (.pdf) Aurora (.pdf) Curadoria (.pdf)

Data Primers · Terreiro é um conjunto de documentos fundacionais — protocolos, guias e modelos operacionais — desenvolvidos para apoiar comunidades de terreiro na proteção, curadoria e governança soberana de seus dados e conhecimentos tradicionais. O nome primer evoca tanto o sentido técnico de documento fundacional quanto o sentido iniciático de primeiro passo: uma base sólida para que cada terreiro possa exercer plena soberania sobre seus saberes.

O trabalho articula marcos internacionais de proteção de conhecimento tradicional, experiências de soberania de dados de comunidades tradicionais ao redor do mundo, e o contexto jurídico, cultural e político brasileiro.

Documentos que baseiam este trabalho

  • CARE Principles for Indigenous Data Governance: GIDA, 2019
  • Local Contexts TK Labels and BC Labels
  • OCAP®: First Nations Information Governance Centre, Canadá
  • Ngā Tikanga Paiherea: Te Mana Raraunga, Nova Zelândia
  • Karuk Tribe Intellectual Property Rights Protocol
  • Traditional Knowledge Digital Library (TKDL): Índia
  • Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, 2007
  • Data Stewardship para Dados do Candomblé: Policy Brief (documento-base)
  • Soberania e Governança de Dados de Povos Indígenas em Tempos de IA Generativa: Carrasco, Torino et al., 2025

Licença

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Adaptações para diferentes contextos e nações do Candomblé são bem-vindas, desde que os créditos sejam mantidos e as adaptações sejam compartilhadas nas mesmas condições.

Axé

Que este trabalho sirva às comunidades, às ancestrais e às gerações que virão.